CAMPANHA DA FRATERNIDADE 1970

A palavra participação, às vezes desgastada pela repetição, adquire sentido pleno no arregaçar das mangas. Sugere zelo e cuidado; trabalho e empenho. É um convite às famílias, aos jovens, aos trabalhadores à disposição ao serviço. A exemplo da parábola do bom samaritano, é preciso saber cuidar do outro, mesmo diante das divergências de ideias de credo ou nacionalidade.

1970 é o ano da euforia ocasionada pela conquista do tricampeonato mundial de futebol pela seleção brasileira. Uma onda de alienação teima em pairar na sociedade. As pessoas e as instituições são chamadas a uma adesão irrefletida aos grandes clichês de “Ordem e Progresso”; “Brasil: ame-o ou deixe-o”, “Pra frente, Brasil”, entre outros. Muitos são os perseguidos políticos e exilados. À Igreja coube mergulhar no escuro dos tempos para reacender fachos de reflexão e incentivo à participação política.

Nesse ano a Campanha passou a receber uma carta de Sua Santidade o Papa, exortando o povo brasileiro (Igreja no Brasil) à caminhada quaresmal em preparação para a páscoa de Jesus Cristo e dando o seu contributo em relação ao tema proposto pela CF, o que se tornou uma tradição na sua abertura.

 

Carta De Sua Santidade o Papa Paulo VI

Diletos filhos do Brasil:

De bom grado acedermos ao convite para abrir, este ano, mais uma Campanha da Fraternidade, no vosso País. Ela irá, nesta Quaresma, interpelar a opinião pública brasileira e animar atividades catequéticas e litúrgicas. O ideal a prosseguir, indicado na Nossa encíclica Populorum Progressio e insistentemente proclamado pela reevocação da Páscoa (passagem) do Senhor entre nós, é o de chegarmos todos, cada vez mais, a reconhecer, na família humana, aquela igualdade fundamental de que, por vontade do Criador, são dotados os seus membros.

A isso nos impele o amor que nos mostrou o Pai, em querer que sejamos todos chamados filhos de Deus e que, na realidade, o sejamos. Disso nos persuade o exemplo de Cristo: de condição divina como era, ele quis tornar-se escravo, para que nós tivéssemos a vida e a tivéssemos em abundância (Jo 10,10). A nossa própria condição de homens, finalmente, nos obriga a participar numa solidariedade e numa responsabilidade de família mundial.

Ora, isso comporta: o ser sempre o “bom samaritano”, o identificar-se, à imitação do Senhor Jesus, com todo aquele que precisa de nós, para ajudá-lo e promovê-lo, humana e religiosamente, com respeito pela dignidade e liberdade; e ter coragem para recusar a passividade, perante os males que oprimem os irmãos, e para combater, em nós e à nossa volta, hábitos e atitudes discriminatórios. Comporta também o exercer, num justo equilíbrio da fortaleza e da prudência cristãs, a caridade apta para eliminar a injustiça de situações socioeconômicas desumanas e toda a espécie de guerras fratricidas; numa palavra: o contribuir para que se dêem as mãos, as pessoas, os grupos sociais e as nações, para a Paz de Cristo, no Reino de Cristo.

A tudo isto sirva, na dileta Nação Brasileira, a presente Campanha da Fraternidade. Com votos pelas prosperidades crescentes e irmãmente desfrutadas por todos os seus filhos,

a Nossa Bênção Apostólica.