CAMPANHA DA FRATERNIDADE 1983

O objetivo geral:

Mostrar como a fraternidade está necessariamente ligada à vitória sobre a violência. A CF 83 pretende levar a comunidade cristã a refletir sobre a seguinte questão: o que se pode e se deve fazer diante da atual escalada da violência nas suas diversas formas?

A injustiça social presente no Brasil, associada á aprovação da lei do divórcio e a consequente degradação da família, cria as condições necessárias para o aumento da violência que atinge índices alarmantes. A CF de 1983 desejava “mostrar como a fraternidade está necessariamente ligada à vitória sobre a violência”. A injustiça social é apontada como a forma mais radical de violência.

Embora os subsídios dessa campanha possibilitassem uma ampla reflexão sobre o assunto, a preocupação maior foi com o agir.

 

Carta de Sua Santidade o Papa João Paulo II

Caríssimos brasileiros.

Irmãos e Irmãs.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Começa a Quaresma. A Igreja vai procurar mais intensamente ajudar-nos a refletir sobre a nossa identidade profunda de filhos de Deus e de irmãos de todos os homens da grande família humana. Com a Quaresma vai iniciar-se no Brasil mais uma Campanha da Fraternidade, em boa hora e com inegáveis benefícios promovida pelos senhores bispos há 20 anos, que hoje tenho a alegria de abrir.

Fraternidade. Deus é Pai de todos nós. Foi quem nos chamou a construir nossa vida sobre a concórdia, a paz e o amor, que levam à fraternidade. O seu filho Jesus Cristo nos ensinou a nos esforçar para sermos perfeitos, parecidos com o mesmo Pai do Céu, sempre misericordioso, para sermos bons irmãos em família iluminada pela prática das bem-aventuranças evangélicas. É, pois, firme e com inabalável confiança neste ensinamento, que hoje proclamo e vos convido a fazer coro comigo: “Fraternidade Sim — Violência Não!”

E parece-me ouvir já o eco desse coro. Tenho ainda gravadas e vivas as saudosas jornadas da minha peregrinação pelo Brasil. Lembro bem as multidões em festa, contagiadas pelo entusiasmo juvenil. E os queridos jovens brasileiros, que o Papa não esquecerá nunca mais, ao saudar, proclamando o ideal com sabor de compromisso: “O Papa é o nosso irmão.” Mas, um irmão entre tantos irmãos. E que beleza o convívio de muitos irmãos juntos! Pareceu-me então que tinha razão quem me dissera ser essa bela e imensa Nação como uma família. Observei a conhecida cordialidade que o Brasil apresenta ao mundo, deixando a impressão, aliás difundida, de ser o povo brasileiro, por índole, avesso à violência e amigo da paz.

No entanto, também no Brasil, sob a aparente e sincera afabilidade, existe a violência. É que no fundo de cada coração humano permanece sempre a marca deixada pela queda original, com a presença da concupiscência de que fala o evangelista João, cujas manifestações não provêm do Pai Celeste, mas do mundo e do príncipe deste mundo, que é o demônio.

Por isso, na convivência e nas estruturas sociais, nem sempre se apresenta sem sombras a fraternidade, quer dizer, não disjunta do pecado, que tem sempre terna dimensão social. A violência ensombra a harmonia e perturba a serenidade dos irmãos da família. Sim à fraternidade, não à violência!

Deus vivo, rico em misericórdia e que é amor, nos quer seus filhos e bons irmãos. Para isso, convida e exorta à conversão e à reconciliação, uma vez mais, nesta Quaresma. E o Papa, com esta Campanha da Fraternidade, convida e exorta a todos, sem exceção, a Igreja que está no Brasil, a viver e afirmar-se, cada vez mais, como Igreja evangelizada convertida, reconciliada, livre, para proclamar que Deus é amor, que o amor é mais forte do que a morte, o pecado e a violência, para proclamar a todos que se abram à revelação do amor e da misericórdia, que têm, na história do homem, uma forma e um nome: chama-se Jesus Cristo.

Cada brasileiro, especialmente os queridos jovens, a abrir-se à misericórdia e ao amor. Amor autêntico, até ao dom de si mesmo, a serviço dos grandes valores e ideais de dignidade e nobreza de toda pessoa humana. Ao amor genuíno, que elimina a ânsia imoderada do ter, do prazer e do poder, e se volta em diálogo para o ser de cada homem, criado à imagem de Deus. Amor verdadeiro, que aproxima os homens e, sem eliminar diferenças, em todos respeita a igualdade fundamental, sabe percorrer os caminhos da misericórdia, para construir solidamente a família humana, a família dos filhos de Deus, em contínuo sim à fraternidade e não à violência.

Esta mensagem, mais do que voto, é prece a Deus, rico em misericórdia. Em vista do iminente Ano Santo da Redenção, quero concluí-la com este apelo: “Abri as portas a Cristo!” E abençoo-vos cordialmente,

em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.