CAMPANHA DA FRATERNIDADE 1991

O objetivo geral:

Que a Igreja e as pessoas de boa vontade assumam a realidade do trabalho e do mundo do trabalho, com todas as suas dimensões de criação, progresso, conflito, divisões e solidariedade, como lugar teológico para a evangelização, o anúncio da Boa Nova no mundo de hoje e para a construção do Reino de Paz, Justiça e Amor.

 

Carta de Sua Santidade o Papa João Paulo II

Amados irmãos e irmãs em Jesus Cristo.

Queridos Brasileiros:

  1. Saúdo-vos cordialmente, neste encontro já tradicional, do início da Quaresma, com as palavras de São Paulo: “Vos exortamos a não receber em vão a graça de Deus” (2Cor 6,1). A graça divina inundará nossas almas, sempre que não fechamos as portas do nosso coração. Se houver generosidade em acolher a sua graça, o Senhor se manifestará na conduta humana, em todo o imenso panorama das realidades terrenas que o homem e a mulher estão chamados a santificar.

É precisamente aqui que se insere a Campanha da Fraternidade que hoje a Igreja que está no Brasil propõe-se a iniciar com o tema: Solidários na dignidade do trabalho.

  1. Através do seu trabalho, o homem está chamado a dar um sentido cristão às realidades temporais inseridas, elas todas, na admirável obra da criação e da Redenção do mundo. Neste sentido, o exemplo de Jesus, que viveu trinta anos em Nazaré trabalhando, lembra que Seu oficio, semelhante àquele de tantos milhões de homens em todo mundo, converte-se em empresa divina, em atividade redentora, em caminho de salvação. Por isso, o homem deve procurar encarar o seu trabalho, não só como instrumento indispensável para o progresso da sociedade e o meio mais eficaz para o relacionamento humano, mas também um sinal do amor de Deus pelas suas criaturas e do amor dos homens entre eles e por Deus.

No Brasil, é comum dizer-se quando vai-se ao trabalho: “Vou para o serviço!” Isto é de importância capital à hora de dar testemunho válido de Cristo, e para descobrir que o trabalho quotidiano é doação mútua, é ajuda, é solidariedade.

  1. Estas considerações, amados irmãos, nos devem levar ao fundamento de todo o trabalho humano digno diante de Deus: a liberdade e a consequente responsabilidade no

O mundo criado e conservado pelo amor do Criador, reivindica a garantia que todos, homens e mulheres, de qualquer condição social e cultural, tenham acesso aos bens necessários para atingir a finalidade de santificarão proposta por Deus.

Para alcançar este fim “todo homem — escrevia o Papa Paulo VI — tem o direito ao trabalho, à possibilidade de desenvolver as próprias qualidades e a sua personalidade, no exercício da profissão abraçada; direito a uma remuneração equitativa que lhe permita, a ele e à sua família, cultivar uma vida digna no aspecto social, cultural e espiritual” (OA, 14).

A esses direitos, acompanham os de uma moradia digna, condições de trabalho livres da insalubridade e do risco de acidentes e, ao mesmo tempo, garantido pelo necessário atendimento hospitalar; respeito pelo seu descanso e pela estabilidade do emprego. Paralelamente a estas condições, a mulher deve poder exigir também uma maior consideração pela sua dignidade, pois não podemos esquecer que ela possuí sua própria individualidade, que vai respeitada e admirada.

  1. Compreende-se então muito bem a impaciência, a angústia e inquietação de quem, com alma naturalmente cristã, não se conforma ante a injustiça pessoal e social: os bens da terra repartidos entre poucos; as vidas humanas, que são santas, porque vêm de Deus, tratadas como simples coisas, sem contar com as discriminações e intolerâncias de todo tipo.

Urge, por isso, considerar o sentido de responsabilidade, tanto pessoal quanto coletivo. A Igreja, do seu lado, tem sempre insistido para que se conheça e difunda o seu ensinamento em matéria social. Foi por este motivo, que decidi promulgar neste ano uma Encíclica, para comemorar o Centésimo aniversário da Encíclica “Rerurn novarum“, e proclamar 1991: Ano da doutrina social da Igreja.

Caros brasileiros, neste início de Quaresma, quando nos preparamos para presenciar os principais acontecimentos da Redenção humana, faço meu apelo a todos os que — como enfatiza o Texto-Base da Campanha da Fraternidade – “prestam várias formas de serviço na sociedade (…), tenham presente que colaboram na redenção do mundo, na medida em que — este serviço —faz crescer a fraternidade, promove a justiça e alimenta a solidariedade” (n. 177).

Que esta Quaresma, com tão ricos propósitos da Campanha da Fraternidade, sirva para aprofundar os laços de participação entre vós, queridos irmãos do Brasil, e vos dê o sentido sobrenatural das realidades terrenas que compete a todos santificar.

Para confirmar-vos nestes santos propósitos de vida cristã, concedo a todos a minha Bênção Apostólica,

em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.