Fraternidade, êxodo e serviço

10/03/2015

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Um dos pontos que o Papa Francisco mais tem realçado é seu desejo de que a Igreja viva em permanente êxodo. Que seja uma Igreja em saída. Assim, o Pontífice chama todos os batizados a uma conversão missionária.

O mandato missionário recebido de Jesus Cristo (cf. Mt 28,19-20) pede uma Igreja em saída para testemunhar a alegria do Evangelho, da vida em Jesus Cristo. Diz o Papa: “Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro”; e ainda: “Mais do que temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção”

Nesse sentido, o Papa exorta os cristãos a não ter medo de entrar na trama desigual e, por vezes, sufocante do tecido da realidade social e ali agir em meio à polis, engajando-se concretamente na política. Em suas palavras: “Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum.”

Inspirada pelas palavras do Papa, a CNBB lançou a Campanha da Fraternidade deste ano, que já vai avançada, tal como o tempo da Quaresma, que vive suas últimas semanas. O tema da solidariedade e do serviço encontra-se no centro dessa mobilização nacional que procura voltar os olhos dos fiéis a uma ideia-chave que os motive a uma real conversão de vida no seguimento de Jesus Cristo e na vivência do Evangelho. O serviço realizado na transformação da realidade na direção de mais justiça e equidade está no centro dessa conversão que, neste momento, a Igreja pede a todos e todas.

Ao fundo dessa exortação está o antigo e sempre vivo binômio já tão presente na Escritura: fé e justiça. Esse binômio percorre toda a palavra de Deus presente nos textos sagrados, convidando incessantemente o povo a não se deixar seduzir pelos ídolos, nem tampouco ceder à tentação de tomar atitudes injustas que oprimem o outro, sobretudo os mais desprotegidos: o pobre, o órfão, a viúva, o estrangeiro. Toda fé em Deus que não se apoie em uma radical prática da justiça, segundo a Bíblia, é falsa e idolátrica.

A Doutrina Social da Igreja e o magistério eclesial na América Latina têm enfatizado essa prioridade muito concretamente nos últimos cinquenta anos. Assim, o documento de Aparecida, ao dirigir-se aos cristãos leigos convidando-os a serem discípulos e missionários, não os convoca apenas nem sobretudo para atividades intra-eclesiais, mas ao contrário, explicita claramente o desejo de vê-los comprometidos na ordem temporal. Destacando o papel que a Doutrina Social da Igreja tem desempenhado na formação dos leigos do continente para animar-lhes o testemunho e a ação solidária, Aparecida diz que os leigos do continente “se interessam cada vez mais por sua formação teológica como verdadeiros missionários da caridade, e se esforçam por transformar de maneira efetiva o mundo segundo Cristo.”

Registra-se portanto um duplo polo positivo da atuação dos leigos na história e no crescimento de sua Igreja: um, relativo à sua inserção intereclesial (“se interessam cada vez mais por sua formação teológica”); o outro diz respeito à sua atuação transformadora no mundo (“se esforçam por transformar de maneira efetiva o mundo, segundo Cristo”). Eclesialidade e cidadania serão, portanto, um binômio constitutivo da identidade, vocação e missão de todo cristão.

Embora muito seja dito sobre o papel dos cristãos dentro da estrutura eclesial (sua eclesialidade), há uma preocupação explícita em reforçar inequivocamente a índole secular da vocação laical (sua cidadania). Cremos mesmo poder dizer que esta segunda tendência é a que vai predominar de forma explícita nestes cinquenta anos posteriores ao Concílio Vaticano II. A partir deste evento de tanta importância no século XX, os cristãos serão convocados explicitamente a formar-se para interferir efetivamente na vida pública, mais concretamente na formação dos consensos necessários e na oposição contra a injustiça.

Esse é o caminho que segue o texto base da Campanha da Fraternidade deste ano de 2015. Ao escolher como lema a frase de Jesus de Nazaré, “Eu vim para servir”, utilizando ao mesmo tempo uma imagem do Papa Francisco durante a cerimônia da Semana Santa chamada lava-pés, a Igreja do Brasil põe-se a caminho de Jerusalém, a fim de celebrar a Páscoa de olhos e ouvidos bem abertos para a realidade que a circunda.

E essa realidade é marcada pela injustiça, pela opressão, pela violência e pelos conflitos. E, por isso mesmo, chama à solidariedade e ao serviço gratuito, humilde e desinteressado. As expressões usadas pelo Papa ao dirigir-se aos católicos, instigando-os a terem “cheiro de ovelha”, a “promoverem agitação”, a transformarem a Igreja em um “hospital de campanha” dão bem a nota deste movimento que ele espera de uma Igreja que seria suicida se permanecesse imóvel enquanto a realidade grita ao seu redor.

Se Jesus, com seu Evangelho, deslocou o eixo central da religião do templo para o ser humano, a Igreja não pode fazer diferente. Seu lugar é em meio ao mundo, à sociedade, dialogando e interagindo com os problemas que afligem as pessoas que uma comum filiação ao mesmo Pai fez irmãos.

Fraternidade entre a Igreja e a Sociedade é, portanto, o caminho da conversão para esta Quaresma. A alienação é incompatível com a fé e com o seguimento de Jesus. Só a solidariedade e o serviço são salvadores, no sentido de que nos fazem cada vez mais humanos e, portanto, cada vez mais de acordo ao coração de Deus.

* professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão” (Edusc)