O que falar nas homilias sobre a Campanha da Fraternidade

20/02/2017

Saber o que falar nas homilias é muitas vezes um desafio para padres recém-ordenados e mesmo para quem já acumula alguns anos na caminhada presbiteral. Ser criativo na exposição da Palavra de Deus é também outro ponto de atenção.

No decorrer do texto, apresentamos alguns pontos essenciais sobre o que dizer durante as Missas, tendo como base diversos documentos e o magistério da Igreja. Esperamos que isso possa ajudar na construção de homilias mais objetivas, organizadas e criativas.

 O que é homilia

Conforme o Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, a homília “é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um pastor com o seu povo” (n. 135).

A preparação do anúncio da mensagem cristã não é somente “técnica”, uma vez que “um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. (…) Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência que necessita da luz da Palavra” (n. 154).

Objetivos de uma homilia

Uma homilia, ou uma passagem dela, pode propor-se, e para os quais se podem encontrar facilmente evidências bíblicas (se se pode limitar também a São Paulo):

Transmitir as informações: fazer conhecer fatos, situações e dados.

– Fazer compreender: explicar, esclarecer, aprofundar, relacionar e dar exemplos.

– Fazer tomar consciência: sensibilizar, fazer sentir importância e romper a indiferença.

– Persuadir: abater as resistências, convencer, fazer aparecer verdadeiro e possível.

– Fazer notar a responsabilidade: envolver, fazer sentir a exigência e fazer abraçar uma finalidade.

– Levar ao compromisso: fazer interiorizar objetivos, motivar a ação, fazer desejar e indicar um percurso.

Os documentos da reforma litúrgica do Vaticano II resumem, então, as tarefas fundamentais da homilia substancialmente em três: o ensino, a exortação e a mistagogia.

O que fazer

Para tornarem-se bons pregadores basta estar dispostos a dedicar o tempo e o compromisso necessários para cultivar adequadamente os próprios recursos. A homilia ideal não existe. É preciso aceitar que toda homilia tem os seus limites. Em todo caso, uma vez que o empenho existiu, os resultados vão confiados a Deus com segurança e ânimo sereno. Nenhum de nós é capaz de medir completamente os frutos da pregação: aquela semente que é a Palavra tem fecundidade autônoma, como Jesus ensinou (Mc 4,26-28).

Se pudéssemos elencar qualidades e habilidades indispensáveis para um pregador desenvolver o seu ministério com fruto e com satisfação, destacaríamos:

– O amor a Deus, ao Senhor Jesus, à Palavra do Reino;

– O amor à comunidade e a vontade de prestar-lhe um bom serviço;

– A competência e a formação necessárias.

Com relação a este último ponto, apontamos uma série de qualidades necessárias para um bom pregador: conhecimento do argumento, segurança de si e força interior, entusiasmo, uma preparação adequada, uma mensagem eficaz, capacidade de escuta e integridade moral.

 Ação do Espírito Santo

Sempre surge o questionamento: um excesso de atenção aos recursos “humanos” não acaba por colocar na sombra os dispositivos “divinos” dos quais o ministério da Palavra se sustenta? Não é melhor confiar na ação do Espírito Santo?

Sobre este ponto de vista é necessário insistir: a ação do Espírito Santo se manifesta também no empenho diligente, em uma boa formação, em uma necessária encarnação daquela caridade pastoral, suscitada pelo próprio Espírito. E por quanto os frutos da sua ação permanecem “misteriosos”, isso não significa que o pregador deve abandonar a pregação ao acaso e ao despreparo, falsamente chamada “inspiração do momento”: isto não tem nada a ver com o “mistério”, isto é, com o plano de Deus revelado em Cristo Jesus.

A ação do Espírito Santo não pode ser invocada, portanto, para justificar a preguiça de quem não busca alcançar uma boa “formação” no comunicar. Entre as outras ações do Espírito, existe certamente uma que inspira na consciência dos pregadores o cuidado “humano” para tornar eficaz a sua pregação.

Por fim, vale para todo pregador o sábio conselho de Santo Inácio de Loyola:  “enquanto preparas a tua intervenção coloca todo o cuidado de que és capaz, como se Deus não existisse e tudo dependesse daquilo que tu farás; quando fizeste tudo, mas exatamente todo o necessário, fica em paz, como se nada dependesse de ti e tudo, ao invés, dependesse da ação de Deus”.

Monsenhor Jamil Alves

Diretor Geral – Edições CNBB

(texto elaborado com base na livro “Pregar a Palavra – a ciência e a arte da pregação”, de Chino Biscontin. Coleção Vida e liturgia da Igreja – volume 2 . edições CNBB)